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As alterações climáticas são
consequência da acumulação de gases com efeito de estufa da
atmosfera, libertados essencialmente pela queima de combustíveis
fósseis (carvão, gás natural e petróleo). Daqui decorre que
apenas podemos continuar a viver num planeta com o clima que
conhecemos desde que o ser humano surgiu se acabarmos com a nossa
dependência dos combustíveis fósseis. Mas esta dependência traz
consigo poderosos lobbies, que os governantes dos países
industrializados não querem enfrentar.
O capitalismo fóssil está ainda vivo,
embora de má saúde. A sua mais perversa criação, o mercado de
carbono, permite aos maiores poluidores ganhar biliões, enquanto
provocam o caos climático, com consequências dramáticas sobretudo
para os mais pobres do planeta. Como foi então isto possível?
O Protocolo de Quioto criou um mercado
de emissões de gases com efeito de estufa, privatizando a atmosfera
de forma a que a nossa sobrevivência na terra seja determinada pelo
casino da alta
finança. Para que este mercado possa
funcionar, os governos determinaram o limite de emissões que irão
autorizar durante o período de cumprimento (2008-2012), emitindo
depois um número de licenças de emissão correspondente. Estas
licenças são dadas aos maiores poluidores, que as podem trocar
entre si. Os poluidores que ultrapassem o limite de emissões podem
assim comprar direitos de emissões aos produtores que consigam ficar
aquém do limite.
Adicionalmente, os poluidores podem
financiar projectos que reduzam emissões em países menos
desenvolvidos, recebendo créditos de carbono em troca, ao abrigo do
Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Estes créditos, tal como
as licenças, podem ser utilizados por outros poluidores para
cumprirem as suas obrigações. Assim se criaram mecanismos de
“flexibilidade”, que permitem que uma empresa ou um país possa
cumprir Quioto sem reduzir as suas emissões.
Um sistema ferido de morte
O primeiro grande problema com o
comércio de emissões é a definição dos
direitos de propriedade sobre o ciclo de carbono terrestre. A
aplicação do Protocolo de Quioto resultou assim na atribuição de
uma renda bilionária aos maiores poluidores, os quais receberam
gratuitamente activos financeiros (licenças de emissão)
transaccionáveis num novo mercado especulativo.
Pior ainda, na UE, onde foi criado um
mercado para as emissões de dióxido de carbono, as licenças foram
atribuídas de forma excessiva. Apenas no primeiro ano de
funcionamento, em 2005, as empresas produtoras de electricidade
britânicas receberam 1.3 biliões de libras com a venda de licenças
de emissões, sem que tenham procedido a quaisquer alterações nos
seus métodos produtivos.
Outra consequência da criação de um
mercado de carbono é o adiamento da mudança necessária para travar
o aquecimento global. No âmbito do mercado de carbono, considera-se
que uma tonelada de CO2 poupada vale sempre o mesmo,
independentemente do local ou da tecnologia utilizada. Embora em
princípio este raciocínio pareça estar correcto, na realidade o
investimento em energias renováveis não se pode comparar a um
melhoramento de rotina numa central termo-eléctrica, para dar um
exemplo. Enquanto no primeiro caso temos um esforço no sentido de
descarbonização da economia, no segundo continuamos a seguir o
mesmo paradigma energético que nos conduziu à situação em que
estamos. Adoptando uma perspectiva a longo prazo, investir na energia
solar permite-nos aproveitar economias de escala, levando a uma
redução progressiva do custo de produção de painéis solares,
enquanto que investir no sequestro de CO2 resultante da queima de
carvão resulta num prolongamento do tempo de vida de uma tecnologia
obsoleta.
Ao tratar de forma igual todos os
cortes nas emissões, o mercado de carbono ignora também importantes
factores sociais e ambientais. Assim se explica como um projecto de
construção de uma nova barragem num país menos desenvolvido pode
ser recompensado com créditos de carbono, mesmo que resulte na
expulsão forçada de locais e na destruição de um ecossistema.
O financiamento de atentados ambientais
e sociais com fundos do mercado de carbono não acontece por mero
acaso. O processo de certificação de um projecto do MDL permite que
as maiores fraudes escapem impunes, tudo em nome da eficiência
económica no esforço de redução de emissões. Desde logo, a sua
aprovação está em grande parte nas mãos de consultores privados,
o que cria conflitos de interesse óbvios. Por outro lado, os dois
requisitos básicos para que um projecto seja aprovado são
inverificáveis.
O primeiro requisito é o da
adicionalidade. Quer isto dizer que um projecto apenas pode ser
aprovado para financiamento com créditos de carbono se o promotor
garantir que não teria sido executado caso o financiamento não
fosse aprovado. Embora aparentemente razoável, esta exigência
reside num jogo de previsão do futuro apenas acessível aos melhores
videntes (mas não serão os consultores videntes de fato e
gravata?).
O segundo requisito é o da
demonstração de que o projecto resulta numa redução de emissões
relativamente a um “cenário de base”. Obviamente que o promotor
do projecto tem todo o interesse em tornar este “cenário de base”
tão negro quanto possível. Se estivermos a falar no investimento
numa nova barragem, por exemplo, o promotor dirá que, caso a
barragem não seja construída, a electricidade será produzida por
uma central a carvão das mais poluentes,. Desta forma, o promotor
apodera-se de uma redução de emissões hipotética, transformável
em créditos de carbono transaccionáveis na bolsa.
Todos estes problemas na certificação
dos créditos de carbono são parcialmente solucionáveis, é claro,
mas apenas à custa do aumento dos custos do sistema. Ora, a
atractividade do mercado de carbono reside precisamente no facto de
oferecer às empresas “reduções” nas emissões a baixo custo.
Mas, mesmo que estes problemas não se
verificassem, a verdade é que os mecanismos de compensação servem
para os países industrializados se esquivarem às suas
responsabilidades, permitindo que as emissões de GEE aumentem
exponencialmente mesmo em países que cumprem Quioto. Enquanto os
especuladores ganham com a transacção de créditos de carbono, os
habitantes dos países mais pobres que em nada contribuiram para
crise climática não recebem nada.
Das falsas às verdadeiras soluções
A resposta do sistema capitalista ao
aquecimento global é a criação de novos mercados que nada fazem
para resolver o problema. Enquanto as empresas poluem o planeta e
lucram com isso, o cidadão é compelido a dar dinheiro a empresas
que plantam árvores para “compensar” as suas emissões, como se
isso fizesse algo além de dar dinheiro a oportunistas. Na realidade,
a crise climática não será resolvida pelo sentimento de culpa. A
mudança social nunca nasceu da culpabilização das pessoas ou do
somatório de acções individuais mas antes da acção política de
movimentos sociais. Esta vaga de individualismo que assola tantas
associações ambientalistas pode ser muito benéfica para muitos
interesses económicos mas apenas resulta num estreitamento do debate
que em muito prejudica a acção destas associações.
Não há soluções
mágicas para a crise climática. Sabemos, contudo, pela
experiência histórica, o que funciona, nomeadamente a reforma
fiscal verde (incluindo o fim dos subsídios aos combustívies
fósseis), a reforma legal para penalizar práticas anti-ambientais e
a execução de investimentos públicos para descarbonizar a produção
de energia e os transportes. Sabemos também que nada se consegue sem
movimentos sociais alargados capazes de lutar por objectivos
específicos. Sabemos ainda que não podemos esperar que a mudança
necessária venha das empresas ou dos governos. Juntemos então todas
as peças do puzzle e lutemos por uma nova ordem mundial, mais justa,
mais solidária e mais ecológica. Em breve poderá ser tarde demais
para o fazermos.
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