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Kevin Smith
No Panamá ocidental, os povos Naso e Ngobe estão a lutar contra a construção de quatro centrais hidroeléctricas em terras indígenas, afirmando que vão destruir as suas terras. Em Okhla, na Índia, membros da comunidade local têm aparecido em grandes números para protestar contra a construção de um incinerador de resíduos numa área residencial. Em toda a Indonésia, pequenos agricultores estão a ser expulsos das suas terras para expandir plantações de óleo de palma, com a indústria do óleo de palma ligada à refinaria de Riau da PT Murini Samsam.
Todos estes projectos estão a receber, ou estão no processo de serem
aprovados para o financiamento do carbono, através do Mecanismo de
Desenvolvimento Limpo (MDL). Este controverso e cada vez mais
desacreditado mecanismo financeiro, que permite que países e empresas
no Norte global comprem créditos de carbono de projectos do Sul global,
tem-se tornado um emblema da mais vasta injustiça climática sendo
exacerbada pelo processo de Quioto.
Há uma crise de confiança generalizada no MDL. Exceptuando as mais
orientadas para o mercado, as ONG's já não estão dispostas a encará-lo
como parte da solução. O Government Accountability Office, dos EUA, o
“órgão de avaliação e investigação do Congresso” emitiu um relatório
que questiona a credibilidade do esquema. Uma declaração do Fórum
Internacional de Povos Indígenas sobre Alterações Climáticas para as
negociações climáticas da ONU em Bali dizia que os projectos MDL
estavam a ser executados “sem o consentimento prévio livre e informado
dos povos indígenas”.
O Protocolo de Quioto delineia três objectivos para o MDL: atingir o
desenvolvimento sustentável, contribuição para alcançar os objectivos
ambientais do vasto tratado climático e assistir os países do Norte a
cumprir as suas obrigações de redução de emissões.
Um bom resultado para as empresas do Norte
Os dois primeiros objectivos têm sido falhanços abismais. O terceiro
tem sido um grande sucesso, mas de forma paradoxal. O MDL tem vindo a
recompensar os grandes poluidores industriais do Sul global que nada
contribuem para o desenvolvimento sustentável. Entretanto, numerosos
estudos têm criado dúvidas sobre a capacidade do MDL trazer benefícios
para o clima. Um estudo recente do Programa de Energia e
Sustentabilidade de Stanford sugeria que até dois terços dos projectos
MDL não traziam nenhuns cortes nas emissões.
O MDL ofereceu um meio de as empresas e os governos do Norte exportarem
a sua responsabilidade para tomar as medidas necessárias em direcção a
uma economia de baixo carbono. Este aspecto do “sucesso” do MDL
sublinha a injustiça climática que está na base do sistema. Os
vencedores são as empresas intensivas em energia, cujas margens de
lucro têm beneficiado imenso no curto prazo através do comércio de
créditos. Devido às falhas fundamentais do MDL, a indústria tem sido
capaz de comprar créditos de carbono baratos para alcançar os seus
compromissos de emissões e evitar o custo de mudar para tecnologias de
baixo conteúdo em carbono. Adicione-se estas poupanças a potenciais
lucros extraordinários de novas opções em mercados derivados e outros
serviços financeiros exóticos e não é nenhuma surpresa que haja tamanha
“corrida ao ouro” neste mercado lucrativo.
Os perdedores do MDL
Pelo contrário, os países do Sul têm perdido imenso. Muitos projectos,
tais como o incinerador de resíduos na Índia, têm sido impostos em
comunidades sem o seu consentimento prévio e informado. O financiamento
do MDL tem entrincheirado o desenvolvimento sujo agindo como um
subsídio financeiro para os grandes poluidores industriais tais como
fábricas de químicos, centrais a carvão e fábricas de polpa e papel. O
MDL foi promovido à custa de um fundo de adaptação existente e a
verdadeira transferência de tecnologias limpas que é tão urgentemente
necessária.
Em 1997, o MDL foi inicialmente apresentado numa forma “tudo ou nada”
apesar de existirem propostas de fundos mais substanciais por países do
Sul. O MDL e os outros mecanismos flexíveis foram incluídos como uma
condição para que os EUA aceitassem metas para as emissões
vinculativas, que mais tarde recusaram a ratificar.
Aparte das metas de reduções de emissões aceites pelo Norte global, a
Convenção em 1997 também aceitou o princípio de dívida ecológica ao
colocar a responsabilidade histórica pelas alterações climáticas nos
países do Norte e ao os comprometer consequentemente com o
fornecimento de fundos para mitigação, adaptação e transferência de
tecnologias.
Uma das maiores frustrações dos países do G-77 nas negociações foi o
falhando dos países do Norte em conseguir progressos nestes
compromissos. Mais de uma década depois, quase nada foi feito no que
toca ao dinheiro. A quantidade de dinheiro que está actualmente
destinada ao Fundo dos Países Menos Desenvolvidos é de 172 milhões de
dólares, o que não chega a metade do que o presidente do Lehman
Brothers recebeu como bónus de Natal no ano passado.
Somas mais substanciais foram prometidas para Fundos de Investimento
Climáticos, mas estes serão administrados pelo Banco Mundial, uma
instituição com um registo lamentável no que toca a direitos humanos e
ambiente e que aumentou o financiamento para os combustíveis fósseis em
94% no último ano. Para mais a maioria deste dinheiro será dado na
forma de empréstimos em vez de garantias e muitos comentadores prevêem
que o Banco dominado pelos EUA será de novo usado como uma ferramenta
para a pressão política nas relações entre países do Norte e do Sul.
Em vez de desenvolver fundos climáticos com governância representativa
que têm financiamento substancial, obrigatório e automático e que são
acessíveis para os mais vulneráveis, os vários anos de disputas nas
negociações resultaram num mecanismo de mercado que meramente beneficia
o Norte e uma mão-cheia de elites industriais do Sul.
Enquanto governos do Norte fazem o que podem para evitar compromissos
para os necessários fundos de adaptação e de transferência de
tecnologia, o Banco Mundial e os lobbies da indústria como a Associação
Internacional de Comércio de Emissões (IETA) estão em força nas
negociações defendendo as virtudes do MDL e procurando oportunidades
para expandir e desregular o mercado. Um representante do Banco Mundial
disse numa sessão plenária das negociações climáticas que “para manter
o sucesso do MDL temos de o expandir e torná-lo mais flexível”. O Banco
Mundial está a actuar de acordo com os interesses das corporações e dos
governos do Norte. A UE está a aceitar que mais de metade dos seus
cortes nas emissões sejam alcançadas pela aquisição de créditos de
carbono, em vez de cortes nas emissões na UE. A UE necessitará portanto
de muitos créditos baratos, o que significa expandir e desregular o MDL.
As expansões propostas incluem tecnologias que são controversas, tais
como a energia nuclear, e não testadas, tais como a Captura e
Armazenamento de Carbono, enquanto a IETA apresentou uma série de
recomendações para o Secretariado Executivo do MDL com a intenção
de acelerar o provesso de aprovação e relaxar as regras sobre
“adicionalidade” e “garantia absoluta”.
Manter os “sucessos” do MDL através destas propostas levará
inevitavelmente a que mais comunidades do Sul enfrentem projectos
indesejados que ameaçam as suas vidas e significará mais oportunidades
para os promotores dos projectos e comerciantes de carbono lucrarem de
operações fraudulentas. Qualquer resultado que venha depois de
Copenhaga e 2012 terá de confrontar a realidade de que o MDL tem sido
imensamente indeficiente para trazer o “desenvolvimento limpo” e que
tem sido muito injusto para os países e comunidades do Sul. Se o MDL
está perto de cair, agora é o tempo de o enterrar de vez. A vontade
política deve ser dirigida para assegurar que ao países do Norte
alcançam o seu compromisso de fornecer financiamento aos países do Sul
Global que não esteja ligado a instituições anti-democráticas como o
Banco Mundial e que não prende estes países ainda mais na espiral da
dívida. Os 4 triliões de dólares que foram mobilizados em dois meses
para salvar os bancos mostrou que largas somas não estão no domínio da
fantasia, se houvesse um compromisso político dos países do Norte nas
negociações com o princípio de justiça climática.
Publicado originalmente a 5 de Dezembro de 2008 pela Carbon Trade Watch.
Traduzido por Ricardo Coelho
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