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Nas grandes manifestações em Lisboa - e houve várias nos últimos anos com 100 a 200 mil pessoas - a maior parte dos manifestantes que vem de longe viaja em autocarros alugados pelos sindicatos. Arménio Carlos, da CGTP, refere que uma grande manifestação de 200 mil pessoas tem custos de 600 mil euros só no transporte em autocarros, que costumam ser alugados pelas uniões de sindicatos distritais.
Por que não viajam, então, os manifestantes de comboio? "Porque da
CP nem sequer nos respondem. Nos últimos dez anos fizemos vários
pedidos e, ou davam-nos preços incomportáveis ou, na maior parte das
vezes, não diziam nada". Arménio Carlos diz que desde há dois anos que
a CGTP deixou, pura e simplesmente, de pedir orçamentos à
transportadora pública.
"Quando foi a reunião do Conselho Europeu no Porto, em 2000,
realizamos uma manifestação e quisemos alugar um comboio com partida de
Lisboa e não nos disponibilizaram carruagens", diz a mesma fonte, que é
responsável pela parte da logística durante as manifestações.
Razões para esta atitude, encontra--as "num preconceito
político-sindical" e na "falta de uma visão estratégica por parte das
várias administrações da empresa". É que, refere Arménio Carlos, "uma
coisa é a CP não ter capacidade e outra é nem sequer dar resposta".
O presidente da CP, Cardoso dos Reis, rejeita estas críticas. "É
completamente falso. Não há nem nunca houve quaisquer restrições a esse
mercado", disse ao PÚBLICO. "Ninguém nos contacta nesse sentido porque
acham que não é cómodo alugar transporte ferroviário e preferem
acomodar as pessoas em 50 autocarros com horários flexíveis do que
reuni-las todas num comboio".
Manuel Grilo, do Sindicato dos Professores, corrobora esta tese.
"Por que não usamos o comboio? "Os autocarros são mais flexíveis em
termos de recolha nas pequenas localidades. É mais fácil que cada
escola alugue o seu próprio autocarro e os professores gostam de vir
juntos".
Uma ideia que é contrariada por alguns clientes dos serviços
especiais da CP que vêem na possibilidade de se poder circular entre as
carruagens uma vantagem do comboio. É o caso da Associação Académica do
Porto, que ainda há um ano levou centenas de estudantes ao Algarve num
composição que pudesse ser percorrida de ponta a ponta para facilitar o
convívio entre os estudantes.
Na manifestação de professores de 8 de Novembro, o SPGL estima em
cerca de 800 o número de autocarros alugados, alguns dos quais em
Espanha por já não haver em Portugal oferta para aquele pico de procura.
Os custos dessa operação ascenderam a 250 mil euros, segundo o mesmo
dirigente. Mas quanto custa ao país centenas de autocarros nas estradas
que podiam ser substituídos por meia dúzia de comboios? O simulador
ambiental da CP só compara o modo ferroviário com o transporte
individual, omitindo, assim, o autocarro. Mas entre Lisboa e o Porto,
enquanto um automóvel emite 41kg de dióxido de carbono por passageiro,
o Alfa Pendular, com 300 passageiros a bordo, só emite 13kg per capita.
Uma diferença suficientemente grande para se perceber que, mesmo
transportando o autocarro muito mais gente que um veículo ligeiro, o
comboio é um modo de transporte mais "limpo".
Numa manifestação de 100 mil pessoas vindos de todo o país, se 10
por cento viajasse sobre carris, bastariam 10 comboios de mil pessoas
para se evitar 200 autocarros na estrada.
O problema é que a CP já não tem frota para responder a um tal pico
de procura porque tem vindo a vender dezenas de carruagens para a
Argentina. Uma forma de evitar custos de manutenção a material que
passa a maior parte do tempo parqueado e de encaixar algum dinheiro nos
depauperados cofres da empresa.
O PÚBLICO perguntou à CP quanto custaria fretar uma composição com
mil pessoas entre Campanhã e Santa Apolónia, num sábado de Maio, com
chegada a Lisboa às 14h30 e regresso à Invicta ao fim da tarde. Um
horário adaptado a uma manifestação. E o pedido foi satisfeito, três
dias úteis depois, com os seguintes preços: um comboio realizado com
automotoras eléctricas de serviço regional custa 11.433 euros (11,43
euros por pessoa em viagem de ida e volta); um comboio com 12
carruagens e um nível de conforto melhorado custa 14.088 euros (14
euros por pessoa).
10 Numa manifestação de 100 mil pessoas bastaria 10 comboios para evitar 200 autocarros nas auto-estradas
Fonte: Público
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