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Franz Chávez
Especialistas em clima reunidos em Poznan, na
Polônia, prometeram criar um cofre dourado de créditos de carbono para
financiar comunidades rurais pobres que se converterem em guardiões de
terras e florestas. Mas são várias as advertências de que o ouro
poderia beneficiar apenas os interesses corporativos. Uma das maneiras
mais efetivas de combater a mudança climática, causada por gases como o
dióxido de carbono que aquecem a atmosfera, é capturando carbono em
plantas, árvores e solos. Para isso é preciso reduzir o desmatamento,
aumentar o reflorestamento e empregar técnicas agropecuárias de
conservação de solos e água.
Se estas atividades forem incluídas
em um regime mundial de comércio de carbono, no contexto de um novo
tratado climático em 2009, poderá haver extraordinários benefícios para
os pobres de zonas rurais e para o ambiente, disse Olav Kojrven,
ex-diretor do Grupo de Energia e de Meio Ambiente do Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). “Entretanto, habilitar os
pobres para que aproveitem essa renda potencial implica fornecer-lhes
ferramentas legais e proteção para colher os benefícios de sua boa
administração”, escreveu Kjorven no informe “Oportunidades da
administração ambiental: mudança climática e poder legal dos pobres
rurais”, em co-autoria com Estelle Fach.
Delegados de mais de
190 países tentaram entre 1 e 12 deste mês, em Poznan, avançar rumo a
um novo pacto para reduzir a contaminação causadora do aquecimento, sob
a Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática. O novo
tratado – que deve se concretizar no final de 2009 em Copenhague – será
o sucessor do Protocolo de Kyoto, em vigor desde 2005 e cujo alcance
termina em 2012. Isso exigirá reduções substanciais de gases de efeito
estufa por todos os países e um fundo para ajudar as nações pobres a
adotarem uma economia mais sustentável e adaptar-se aos impactos da
mudança climática.
“É essencial garantir que os futuros
mecanismos de mercado adotados no contexto da Convenção não excluam os
pobres de zonas rurais, mas que trabalhem para seu beneficio”, disse
Kjorven ao Terramérica. Já há dispositivos, como o Mecanismo de
Desenvolvimento Limpo (MDL), para ajudar países e empresas do Norte a
cumprirem obrigações de reduzir suas emissões desses gases, com o
incentivo de criar um mercado de carbono, onde são negociados créditos
ou certificados, como ações na bolsa de valores. O Pnud promove uma
divisão eqüitativa dos benefícios derivados da redução das emissões de
carbono.
Com acesso a financiamento, a agricultura sustentável e
a proteção de florestas, que capturam carbono em plantas, árvores e
solos, será gerada renda para as comunidades rurais e haverá redução de
grandes volumes de gases de efeito estufa. Também melhorarão a
biodiversidade, os hábitat, a água e os solos, disse Kjorven. Um MDL
reformado e um novo tratado climático podem proporcionar um contexto
global, regulado, transparente e eqüitativo, necessário para
materializar esta grande visão de carbono transformado em ouro,
acrescentou. O MDL permite que empresas de países industrializados
obtenham créditos investindo em projetos limpos no Sul em
desenvolvimento.
Desde 2005, foram autorizados mais de quatro
mil projetos no valor de milhares de milhões de dólares em
investimentos públicos e privados para reduzir emissões de gases em
países pobres. Contudo, a complexidade e o custo para se ter acesso ao
MDL fazem com que sejam contemplados apenas grandes projetos de países
como Brasil, Índia e México. Além disso, a conservação das florestas
não está contemplada no MDL, embora entre 20% e 25% das emissões de
dióxido de carbono do mundo tenham origem no desmatamento. “As
florestas estão desaparecendo em um ritmo recorde, e temos de mudar as
regras do jogo para proteger o que resta”, disse Kjorven.
Em
Poznan houve um amplo acordo quanto a ser mais rentável conservar as
florestas do que convertê-las em madeira ou cortá-las para cultivo,
sempre e quando houver fundos no mercado de carbono para conservação
florestal, disse Frances Seymour, diretora-geral do Centro
Internacional para a Pesquisa Florestal (Cifor). “As florestas são
cruciais para combater a mudança climática e adaptar-se a ela”,
acrescentou Seymour em uma entrevista coletiva em Poznan. O Cifor é uma
das muitas entidades a favor de um esquema de pagamento pela
preservação de florestas, conhecido como Redução de Emissões pelo
Desmatamento e Degradação (REDD).
Segundo a Redd, os países mais
ricos pagariam para manter e reflorestar selvas de regiões tropicais,
que permitiriam compensar sua própria contaminação causadora da mudança
climática. “Se não incluirmos as florestas em nossas estratégias para
enfrentar a mudança climática poderemos ter um cenário de pesadelo no
qual as emissões pelo desmatamento e pela degradação alimentarão o
aquecimento global, que por sua vez acelerará a perda de florestas”,
disse Seymour. O fato de em muitos lugares do mundo os camponeses
pobres não terem propriedade nem posse da terra é um obstáculo para
terem acesso a esse tipo de financiamento, reconheceu Kjorven.
“Isso
significa que temos de apoiar esforços, país por país, para estabelecer
instituições e sistemas necessários e garantirmos que sejam
esclarecidas as questões relativas aos direitos sobre a terra”,
acrescentou Kjorven. A precariedade do vínculo com a terra, nesta nova
era de mercado financeiro de carbono, privará os pobres de rendas
possíveis e “inevitavelmente levará à exploração, perda do sustento,
mais marginalização e uma série de outros danos sociais e ambientais”,
ressaltou.
Por outro lado, não há garantias de que os pobres se
beneficiarão desse sistema, pelo contrário, disse Miguel Lovera,
presidente da Coalizão Mundial pelas Florestas, uma organização
não-governamental com sede no Paraguai. As conversações de Poznan
parecem ter versado mais sobre comércio e dinheiro para empresas
privadas do que sobre reduzir a contaminação ou ajudar os pobres, disse
Lovera ao Terramérica. “Há uma promoção agressiva dos mecanismos de
mercado como única solução para a crise climática”, afirmou.
Também
é duvidoso que um sistema financeiro de carbono possa competir com os
ganhos de cortar árvores para plantar soja ou palma, disse Lovera.
“Para proteger as florestas são necessárias decisões políticas firmes
dos governos nacionais, e não complexos mecanismos de mercado”,
ressaltou. Kjorven concordou que se deve evitar a complexidade. Porém,
“ainda é mais difícil deter o desmatamento sem normas de mercado que
possam desviar os investimentos a favor da conservação e das práticas
sustentáveis”, concluiu.
* O autor é correspondente da IPS.
Fonte: IPS
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