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David Cronin
A redução real de emissões de gases de efeito estufa da União Europeia poderá chegar a apenas 4% ate 2020, de acordo com o pacote de medidas aprovado ontem pelo Parlamento Europeu. Este corpo legislativo aprovou o conjunto de medidas acordadas pelos governos do bloco na semana passada. Os 27 países da UE se comprometeram a reduzir em 20% suas emissões de dióxido de carbono e outros gases causadores do efeito estufa, em relação aos níveis de 1990. Como parte de um objetivo conhecido como “triplo 20%”, a UE prometeu aumentar nessa proporção a eficiência energética e a energia procedente de fontes renováveis. Mas, a letra pequena de pé de página do pacote permite que o grosso da diminuição de dióxido de carbono seja “compensado” com projetos de “desenvolvimento limpo”, fora de fronteiras. Uma parte integral do conjunto de medidas é conhecida como “lei de esforço compartilhado” e depende em especial da compensação.
O Fundo Mundial para a Natureza (WWF) calculou que a verdadeira
redução de emissões dentro da UE poderá ser de apenas 4% ou 5% até
2020. A estimativa tem por base dados da própria agência ambiental da
União Européia, segundo a qual nos países do bloco somente foram
reduzidos 8% das emissões entre 1990 e 2006. Os 12% restantes
necessários para chegar ao objetivo de 20% podem ser feito no
estrangeiro. “A meta de 20% fica bem no papel”, disse a porta-voz da
WWF, Delia Villagrasa. “Mas, são palavras sem base porque os países da
UE podem cumprir três quartos do esforço além fronteiras”, acrescentou
Villagrasa.
A WWF afirma que esse compromisso não basta para
cumprir o objetivo declarado da União Européia de evitar que a
temperatura global aumente mais que dois graus em relação à época
anterior à industrialização. Se outras regiões seguirem o exemplo do
bloco europeu, a camada de gelo da Groelândia derreterá e o futuro de
muitas cidades estará em risco por causa da elevação do nível do mar. O
especialista em mudança climática Joris den Blanken, da organização
ambientalista Greenpeace, concorda.
“Compartilhar esforço
permite compensar fora da UE tantas emissões que não creio que deva ser
considerado como dentro da legislação do bloco”, afirmou Blanken.
“Plantar árvores na África aleatoriamente para continuar emitindo
dióxido de carbono na Europa não é a solução para a mudança climática.
Compensação significa exportar a responsabilidade para o Sul em
desenvolvimento e eliminar o incentivo que tinha a indústria para
melhorar a eficiência e investir em fontes alternativas de energia. Não
ajudará a reduzir nossa dependência dos combustíveis fosseis que são
caros, como o gás da Rússia, nem fará diminuir nossa fatura”,
acrescentou.
Vários eurodeputados de peso pertencentes aos
principais partidos políticos consideraram que a votação foi uma
vitória para o meio ambiente. O parlamento “deu um passo histórico em
sua luta contra a mudança climática, que ameaça tornar insustentável a
vida no planeta’, disse Joseph Daul, líder do Partido Popular Europeu
(PPE, centro-direita). Também afirmou que a medida ajudará nos esforços
para forjar um novo acordo destinado a conter a mudança climática na
próxima conferência da Organização das Nações Unidas, em Copenhague no
próximo ano. “Graças a este resultado, a Europa se coloca à frente da
luta para preservar o meio ambiente”, acrescentou.
“Em um
contexto de crise econômica, esse pacote é um êxito”, afirmou, por sua
vez, a eurodeputada liberal sueca Lena Ek. “Os investimentos verdes
criarão postos de trabalho e deixarão nossa indústria como
protagonista. Com este pacote de medidas, confirmamos a liderança na
Europa na luta contra a mudança climática”, acrescentou. Os
eurodeputados de esquerda alegaram que a preocupação de Alemanha,
Itália e Polônia em evitar uma dor de cabeça no curto prazo às
indústrias contaminantes enfraqueceu o pacote de medidas.
A
última versão aprovada não impulsionará as mudanças necessárias no
estilo de vida, como reduzir o uso de veículos 4x4 (com tração nas
quatro rodas) e seu insaciável apetite por combustíveis fosseis, disse
o alemão Daniel Cohn-Bendit, presidente do grupo no Parlamento Europeu
do partido Os Verdes. “O compromisso alcançado é débil devido ao
egoísmo nacional. Os objetivos do Triplo 20% se diluíram para legitimar
uma economia 4x4”, protestou.
Outra medida aprovada pelos
eurodeputados é que os fabricantes reduzam a quantidade de dióxido de
carbono emitida por seus veículos. Os novos automóveis liberam, em
média, 160 gramas por quilômetro, e essa quantidade teria de baixar
para 130 até 2012. Além disso, os ambientalistas estão descontentes
porque as multas para os fabricantes que não respeitarem o limite são
consideradas inferiores às previstas originalmente.
As empresas
teriam de pagar 20 euros (US$ 28) para cada grama adicional, segundo o
previsto pela Comissão Européia, órgão executivo da UE. Mas o intenso
lobby da indústria automotiva e de governos afins, como o da Itália,
baixou esse valor para cinco euros (pouco menos de US$ 8). A multa é
tão baixa que não obrigará as montadoras a respeitarem os níveis
máximos de contaminação, disse Jos Dings, da Federação Européia de
Transporte e Meio Ambiente. “Uma lei só é uma lei se tem um regime de
conformidade efetivo. O que temos é bastante ridículo”, ressaltou.
Fonte: IPS/Envolverde
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