|
Robert Bryce
Desde 1859, quando o Coronel Drake
descobriu petróleo na Pensilvânia, até 1973, os
EUA foram o principal actor no negócio da energia global.
Durante a maior parte desse período, a América era o
principal produtor e consumidor de petróleo e gás no
planeta.
Esta dominância estendeu-se à
tecnologia, às finanças, aos transportes e à
refinaria. Quando as reservas de petróleo foram desenvolvidas
e colocadas no mercado, os EUA não tinham nenhum sério
rival.
Esses dias já passaram.
Neste
momento, empresas nacionais, como a Aramco saudita, a Gazprom russa
ou a PDVSA venezuelana controlam cerca de 77% das reservas de
petróleo conhecidas. Ao mesmo tempo, a procura crescente da
China, da Índia e de outros países em desenvolvimento
está a permitir que as empresas petrolíferas nacionais
alterem o seu padrão de vendas. Em vez de procurar exportar o
seu produto para consumidores ocidentais, estão a olhar para
leste.
Foi em Abril de 1973 que a quota sobre
a importação de petróleo nos EUA acabou. Seis
meses depois, começava uma das maiores crises energéticas
da história, no seguimento do embargo sobre o petróleo
árabe. A era da energia abundante e barata havia terminado.
Quase todas as discussões sobre
a independência energética e o aquecimento global
incluem apelos a uma maior eficiência energética. O
argumento é simples: se usássemos a energia de forma
mais eficiente, o consumo descerá e tudo será melhor.
Não há dúvida de que a eficiência é
uma coisa maravilhosa. Permite que os consumidores extraiam mais
trabalho de um quilo de carvão, de um litro de gasolina, de
uma turbina eólica ou de uma célula fotovoltaica. E
quanto mais eficiente se torna um processo, maiores são os
lucros. Um carro que atinge 30 milhas por galão pode dar o
mesmo valor que um que atinge 15 milhas por galão – e
consegue fazê-lo a metade do custo do combustível. Uma
lâmpada fluorescente compacta que consome 18 watts e dá
a mesma luz que uma lâmpada incandescente consumindo 60 watts
faz todo o sentido do ponto de vista económico.
Mas a eficiência por si só
não nos dará a salvação para a crise
energética. A prova está na análise de outras
inovações tecnológicas. Nos primeiros dias do
computador pessoal, afirmava-se que os escritórios iriam
deixar de usar papel. Isso não aconteceu. Em vez disso, novas
indústrias nasceram, resultando num cada vez maior consumo de
papel. Da mesma forma, previsões de que uma maior eficiência
levará a um menor consumo de energia falharam completamente.
Durante décadas, o guru da
energia Amory Lovins tem declarado que um aumento da eficiência
reduzirá a procura de energia. Por exemplo, em 1984, Lovins
afirmou à Business Week que “veremos a procura de energia a
baixar no médio e longo prazo. As perspectivas a longo prazo
para vender mais electricidade são fracas. Nunca teremos,
suspeitamos, um preço suficientemente elevado para justificar
a construção de mais centrais termoeléctricas
centralizadas. Essa era acabou.”
Mas não acabou.
O consumo de electricidade nos EUA
aumentou cerca de 66% desde que Lovins fez esta declaração.
Para satisfazer essa procura, as empresas do sector energético
construíram dezenas de centrais termoeléctricas. Na
realidade, Lovins tem-se enganado sistematicamente nas suas
previsões. Em 1976, previu que a energia renovável iria
fornecer 30% da procura de electricidade nos EUA em 2000. A figura
real está mais próxima de 1 a 2%. E, no entanto,
“inexplicavelmente”, nota Vaclav Smil, da University of Manitoba,
"Lovins mantém a sua aura de guru independentemente de
quanto erra."
Tal como Lovins previu erradamente que
a eficiência reduziria a procura de energia, existe uma crença
generalizada de que um aumento da eficiência dos automóveis
reduzirá o consumo de combustíveis. Mas a História
mostra que, apesar dos aumentos na eficiência, o consumo de
energia não pára de aumentar.
Os Prius da Toyota e outros carros
híbridos são porreiros. Mas são, como um
analista da indústria do petróleo afirmava, “um penso
rápido num amputado”. Mesmo aumentos dramáticos na
eficiência dos automóveis apenas reduzirão a taxa
de crescimento do consumo de petróleo.
As limitações da
eficiência energética foram tornadas claras pelo livro
de 2005 de Peter Huber e Mark Mills. Os autores concluem que a
eficiência energética não baixa a procura,
aumenta-a. Explicam que o objectivo da eficiência energética
tem sido consensual na política dos EUA desde os anos 70. No
entanto, apesar de a eficiência ter aumentado dramaticamente
desde então, a procura tem crescido. Este excerto explica
porque a procura de energia irá continuar a aumentar:
A eficiência pode baixar a
procura no curto prazo, para a tarefa específica que temos em
mãos. Mas no longo prazo o impacto é o oposto. Quando
as centrais termoeléctricas, os motores a jacto, os motores de
automóveis, as lâmpadas, os motores eléctricos,
os ar condicionados e os computadores eram muito menos eficiente que
são hoje, consumiam muito menos energia. À medida que
se tornaram mais eficientes, as vendas aumentaram, logo o consumo
global aumentou. Por unidade de energia utilizada, os EUA produzem
mais do dobro do PIB hoje que produzia em 1950, mas o consumo de
energia aumentou para o triplo no mesmo período. A eficiência
não baixa a procura porque permite que mais pessoas façam
mais coisas, de forma mais rápida – o que anula os ganhos de
eficiência.
Huber and Mills não foram os
primeiros a notar neste paradoxo. Em 1865, o economista britânico,
William Stanley Jevons, publicou aquele que se tornaria o seu mais
famoso livro “A questão do carvão”. O livro de
Jevons marcou o início da economia da energia. Após
estudar os padrões de consumo no Reino Unido e assumindo
(erradamente) que os depósitos de carvão seriam
esgotados em breve, Jevons conclui que “é uma consfusão
de ideias supor que o uso económico de combustível
equivale a uma redução no consumo. O contrário é
verdade”. Esta observação ficou conhecida como o
Paradoxo de Jevons.
Em 2003, Vaclav Smil publicou um livro
magnífico, “Energy at the Crossroads”, que dá aos
leitores uma visão exaustiva da história do consumo de
energia, dos problemas com a previsão do uso de energia e os
desafios que enfrenta a transição para o fim do uso de
combustíveis fósseis. No que toca à eficiência
energética, Smil – como Huber, Mills, e Jevons – conclui
que a história está “repleta de exemplos demonstrando
que substanciais ganhos na eficiência da conversão (ou
uso de materiais) estimulam aumentos no uso de combustíveis ou
de electricidade (ou de materiais) bem superiores às poupanças
alcançadas com estas inovações.”
Nada disto implica que a eficiência
é má. A eficiência é fantástica. É
uma parte essencial da nossa economia em evolução. Faz
sentido conseguir mais trabalho de cada unidade de energia. A
eficiência energética conserva capital. É boa
para o ambiente. É boa para ricos e pobres. Ajuda a reduzir o
impacto da volatilidade de preços da energia e possíveis
choques petrolíferos para os consumidores. Em 2002, dois
economistas do Congressional Research Service, Marc Labonte e Gail
Makinen, escreveram um relatório sobre este assunto que
conclui que a eficiênicia “reduzir, e continuará a
reduzir, os efeitos destes choques na nossa economia.”
Mas enquanto a eficiência é
louvável, por si só não pode levar a uma redução
no consumo de energia ou à independência energética.
Robert Bryce lançou recentemente
o livro "Gusher of Lies" e é o editor da revista
Energy Tribune.
Traduzido e adaptado da Alternet.
|