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Os mercados de emissões têm
sido apresentados por muitos economistas, governantes e até
alguns ambientalistas como uma forma de reduzir as emissões de
um poluente com um baixo custo. A lógica da flexibilidade
permite elaborar estudos em que se estimam enormes somas em custos de
controlo da poluição evitados. No campo político,
argumenta-se que esta abordagem reduz a resistência das
empresas à regulação ambiental e que é
mais exequível que a criação de eco-taxas.
Quanto aos movimentos ambientalistas mais corporativos, defendem que
um sistema de comércio de emissões permite uma maior
redução das emissões, comparado com outros
instrumentos de regulação ambiental.
Todos estes estudiosos e burocratas
citam frequentemente a experiência americana com os mercados de
emissões como um grande sucesso. Foi, aliás, com esta
convicção que a delegação dos EUA em
Quioto, chefiada por Al Gore, conseguiu impor ao mundo o comércio
de carbono. Mas a evidência empírica não suporta
todo este optimismo.
Carros vs pessoas
O primeiro grande programa de comércio
de emissões visou o chumbo na gasolina. O chumbo começou
a ser adicionado como um aditivo nos anos 1920, como uma forma barata
de aumentar o nível de octanas. Já nesta altura se
sabia que o chumbo era tóxico, mas os interesses corporativos
das refinarias e dos fabricantes de automóveis triunfaram
sobre a defesa da saúde das populações
citadinas. Mesmo no início dos anos 70, quando vários
estudos demonstravam os efeitos do chumbo em adultos (problemas de
hipertensão) e em crianças (redução da
capacidade cognitiva), o Congresso ainda discutia os problemas de
substituir este aditivo com outro mais caro para as refinarias. Nada
pode ser mais ilustrativo do imenso poder do automóvel nas
sociedades modernas que um debate parlamentar onde o bem-estar da
população conta menos que a performance dos motores.
Foi em 1974 que se iniciou uma política
para eliminar progressivamente o chumbo da gasolina. Apenas em 1982,
no entanto, se adoptaram limites mais ambiciosos para a incorporação
de chumbo. Nesta altura, foi criado um sistema de créditos de
chumbo. Uma refinaria que produzisse gasolina com menos chumbo que o
limite imposto recebia assim créditos de chumbo, que podia
vender a uma refinaria que produzisse gasolina com mais chumbo que o
limite.
O sistema abriu o caminho para a fraude
generalizada. Tendo em conta que é difícil monitorizar
a produção de gasolina, muitas pequenas refinarias
reportaram à EPA (Agência de Protecção
Ambiental) níveis de produção inferiores ao
registado. Pior ainda, muitas destas refinarias falsificaram créditos
de chumbo. O crime compensava porque era muito difícil para a
EPA saber quem tinha gerado o crédito falsificado depois de
ter trocado de mãos. Este tipo de estratagema foi também
utilizado em grande escala por estações de serviço
que misturavam álcool com a gasolina para reduzir o seu
conteúdo relativo de chumbo.
O chumbo apenas foi eliminado
definitivamente como um aditivo em 1996, oito anos depois do
previsto. Curiosamente, mesmo com todos estes falhanços os EUA
estiveram na vanguarda na eliminação do chumbo entre os
países desenvolvidos, já que acordos comerciais adiaram
o fim do chumbo na Europa para o fim dos anos 90. O Japão, no
entanto, conseguiu eliminar o chumbo como aditivo em apenas 14 anos,
enquanto os EUA demoraram 22 anos.
Chuva ácida em saldo
O programa de
comércio de dióxido de enxofre (SO2) é
apresentado frequentemente como a inspiração para o
comércio de carbono. Criado em 1990, o programa incluía
inicialmente as maiores centrais termo-eléctricas a carvão
e incluiu em 2000 quase todas as centrais termo-eléctricas.
Esta medida é
frequentemente apresentada como um grande progresso ambiental. Na
primeira fase, entre 1995 e 2000, a redução nas
emissões foi superior ao exigido e o incumprimento foi nulo.
Mas atribuir esta redução nas emissões ao
Programa para as Chuvas Ácidas (PCA) é claramente um
exagero. O período foi marcado por um aumento inesperado na
disponibilidade de carvão com baixo conteúdo de
enxofre, assim como uma enorme redução no seu preço.
A redução drástica do preço do transporte
por comboio e a concentração das populações
em zonas com grande disponibilidade deste tipo de carvão
também ajudaram a que as centrais termo-eléctricas
substituíssem carvão com alto conteúdo de
enxofre por carvão com baixo conteúdo de enxofre.
Finalmente, importantes avanços na tecnologia dos filtros
reduziram o seu preço para metade.
A substituição
do carvão foi guiada acima de tudo por preocupações
com poupança de custos mas teve como efeito colateral a
redução das emissões de SO2. Mas as
emissões deste poluente também foram negativamente
afectadas por motivos ligados à formação de
expectativas erradas acerca da evolução do mercado.
Antes de 1995, as empresas de produção de electricidade
antecipavam valores elevados para as licenças de emissão
(cerca de duas a três vezes mais os valores verificados
posteriormente) o que as levou a empreender um esforço para
reduzir as suas emissões, instalando filtros ou assinando
contratos de fornecimento de carvão com baixo conteúdo
de enxofre a médio prazo. Caso estas empresas tivessem
estimado correctamente os preços das licenças de
emissão, o nível de emissões registado em 1995
seria bastante superior.
Mas mesmo que
ignoremos todas estas questões e assumamos que todas as
reduções nas emissões se devem ao PCA, os
resultados continuam a ser desencorajadores. Entre 1990 e 2000, as
emissões de SO2 foram reduzidas em 29%. No mesmo período,
a França reduziu as suas emissões em 53%, a Itália
em 57%, o Reino Unido em 68% e a Alemanha em 88%. A Europa Ocidental
reduziu as emissões de SO2 em 56%, em média,
registando-se resultados piores aos dos EUA apenas em países
que não adoptaram estratégias para a redução
das emissões.
Os resultados da
segunda fase do PCA não são mais encorajadores. Como o
programa permite que as licenças de emissão não
utilizadas sejam depositadas para uso futuro, as empresas utilizaram
o seu excedente de licenças acumulado durante a primeira fase
para evitar reduzir as suas emissões. Entre 2000 e 2007 a
redução nas emissões de SO2 foi de
20% mas até 2005 foi praticamente nula.
Um factor que
levou a um aumento das emissões foi a inclusão de
diversas provisões que resultaram num aligeiramento dos
objectivos para o controlo da poluição. Projectos de
conservação de energia ou de investimento em "carvão
limpo" foram recompensados com mais de 300.000 licenças de
emissão. Os maiores poluidores receberam 50.000 licenças
por ano durante a segunda fase. Finalmente, provisões que
permitiam a inclusão voluntária de fontes de emissões
na primeira fase resultaram na entrada de centrais termo-eléctricas
cujas emissões estariam abaixo do limite mesmo que não
tivessem sido incluídas no programa, gerando um excesso de
licenças de emissão (o chamado "ar quente").
Um caso para o CSI
A região de
Las Vegas tem tradicionalmente a pior qualidade do ar em todo o país.
Para reduzir a formação de "smog" (ozono
troposférico), um tóxico poluente, foram propostos
vários standards tecnológicos que levariam as empresas
a instalar controlos para as emissões dos seus percursores
(óxidos nitrosos, NOx, óxidos de enxofre,
SOx, e compostos orgânicos voláteis). Mas a
indústria conseguiu pressionar o governo local com sucesso,
nascendo assim um programa de comércio de emissões
regional em 1994.
O RECLAIM
(Regional Clean Air Incentives Market) criou dois mercados de
emissões para os poluentes NOx e SOx, à semelhança
do mercado nacional para o SO2. O programa foi desde o início
mal concebido, já que a quantidade de licenças de
emissões distribuídas pelas fontes excedia em 40% as
emissões iniciais. Pior ainda, diversas revisões do
programa resultaram num aumento considerável do stock de
licenças de emissões.
Esta situação
durou até 2000, pelo que as reduções nas
emissões registadas foram muito baixas. A própria EPA
reconhece que, caso tivessem sido adoptados standards tecnológicos,
o ritmo de redução das emissões seria duas a
três vezes superior. Nesta altura já era claro que os
objectivos traçados inicialmente para o RECLAIM nunca seriam
cumpridos.
Em 2000, quando
finalmente a quantidade de licenças de emissão
disponíveis no mercado era suficientemente reduzida para
induzir controlos de poluição, um grande aumento na
procura de electricidade levou a um grande aumento nas emissões
de NOx. Como resultado, o preço das licenças de emissão
disparou e o programa foi suspenso para as maiores fontes durante
três anos. Assim se desfazem as dúvidas acerca das
verdadeiras intenções de um programa de comércio
de emissões, já que apenas é aplicado quando
permite aos poluidores escapar às suas obrigações.
Ao longo dos anos,
várias válvulas de segurança foram criadas,
permitindo às empresas gerar (ainda) mais licenças de
emissão. Uma das provisões mais escandalosas permitiu
que a retirada de circulação de veículos das
estradas gerasse licenças de emissão. Alguém que
levasse o seu carro velho para a sucata podia assim receber uma
quantia correspondente às estimativas arbitrárias sobre
as emissões que esse veículo teria gerado caso tivesse
continuado em circulação. A fraude tornou-se um grande
negócio. Muitos carros foram desfeitos mas os motores foram
aproveitados para outros carros. Carros que não eram
utilizados há anos foram entregues em sucateiros para receber
o bónus das licenças de emissão. Em muitos
casos, chegou-se mesmo ao ponto de reparar carros que já não
andavam apenas para os entregar a seguir a um sucateiro.
A geração
de licenças de emissão com a destruição
de veículos também criou problemas de justiça
ambiental. As emissões dos veículos são, por
definição, descentralizadas. Substituir estas emissões
por emissões de fontes estacionárias resulta na sua
concentração em algumas zonas geográficas.
Especificamente, várias investigações têm
demonstrado que as comunidades latinas foram especialmente
prejudicadas pela criação de "hotspots" (locais
onde se concentram grandes quantidades de poluentes tóxicos).
Desaprendendo com a História
As experiências
com o comércio de emissões estão longe de
corresponder ao retrato cor-de-rosa pintado por alguns movimentos
(supostamente) "ambientalistas". Não só o nível
de redução de emissões foi, no geral, reduzido,
como a emissão de créditos de poluição
criou um enorme potencial para o enriquecimento ilícito. As
regras foram constantemente criadas à medida das necessidades
dos grandes poluidores. Por outro lado, as estimativas de poupanças
de custos apenas são credíveis no âmbito de
modelos demasiado simplificados, cujos pressupostos se distanciam
frequentemente da realidade. Mas a questão essencial é:
fará sentido falar em poupanças de custos quando os
resultados ambientais são piores que a alternativa? A resposta
é não, claro.
Mas mesmo que
admitamos por um momento que os programas de comércio de
emissões norte-americanos foram um sucesso, partir daí
para a defesa do comércio de carbono à escala
internacional consiste numa extrapolação desmesurada.
No primeiro caso temos programas nacionais dirigidos a um pequeno
número de fontes e englobando apenas um poluente. No segundo
caso, pelo contrário, temos um programa internacional dirigido
a um enorme número de fontes e englobando seis poluentes
distintos. A complexidade do comércio de carbono é tal
que muito dificilmente poderá correr bem, dada a dificuldade
de monitorizar eficazmente as emissões. A comprová-lo
está, aliás, a experiência desastrosa do programa
europeu de comércio de dióxido de carbono.
Para saber mais: Pollution for sale: made in the USA.
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