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O preço do barril de petróleo
ultrapassou já os 135 dólares. Mesmo tendo em conta a
inflação, esta valor ultrapassa o do pico das crises
petrolíferas dos anos 70. Está na altura de fazer uma
pausa e reflectir sobre a sociedade que construímos.
História esquecida
Em 17 de Outubro de 1973, a Organização
dos Países Árabes Exportadores de Petróleo
(compreendendo os membros árabes da OPEP mais Egipto e Síria)
retaliaram contra o apoio de países ocidentais e do Japão
a Israel na guerra de Yom Kippur decretando um embargo à
exportação de petróleo. Ao mesmo tempo, a OPEP
reduziu a sua produção, depois de as negociações
com as sete grandes petrolíferas terem falhado. Como
resultado, o preço do barril de petróleo disparou.
Seguiu-se em 1979 uma nova crise
petrolífera, desta vez causada pela Revolução
Iraniana, que depôs o Xá. A produção de
petróleo do Irão foi de novo afectada, assim como a do
Iraque, pela guerra Irão-Iraque de 1980. Apesar dos esforços
da parte da Arábia Saudita e de outros países da OPEP,
o preço do barril de petróleo aumentou de novo.
Muitos estudos económicos
estimam a elasticidade da procura da gasolina e do gasóleo em
valores muito baixos. Por outras palavras, será necessário
um grande aumento nos preços dos combustíveis para que
o consumo diminua de forma significativa. Daí que, apesar dos
recentes aumentos nos preços dos combustíveis, o
consumo não diminua muito.
Mas houve de facto um esforço no
sentido de reduzir o consumo de gasolina dos automóveis nos
anos 70, chegando-se mesmo ao ponto de suspender a produção
de veículos mais gastadores. O que impulsionou esta mudança?
Provavelmente, mais que o aumento do preço, a quebra na
oferta.
As crises dos anos 70 não
tiveram impactos apenas nos preços, mas também
afectaram a oferta. As estações de serviço
racionavam clientes e era por vezes difícil encontrar um sítio
para abastecer o carro. O facto de se tornar óbvio para todos
que o petróleo era um recurso escasso induziu assim esforços
no sentido da conservação de energia, a tal ponto que
os anos 80 foram marcados por um excesso de oferta nos mercados
internacionais (oil glut).
As consequências do aumento do
preço do petróleo
Tem havido um intenso debate sobre os
motivos do aumento exponencial do preço do barril de petróleo
nos mercados internacionais1. Não entrarei nesse debate,
embora me pareça algo fútil a tentativa de demonstrar
que não existe um decréscimo na oferta de petróleo
barato. É no preço, portanto, que reside o problema, e
não na quantidade.
Infelizmente, teremos petróleo
para abastecer o nosso estilo de vida viciado nos combustíveis
fósseis durante muito tempo, talvez séculos. A questão
que se coloca, então, é a de saber qual o impacto que
terá nas sociedades industrializadas um aumento persistente do
preço do petróleo.
Muitos ambientalistas vêem com
bons olhos este aumento, na medida em que poderá encorajar
medidas de conservação de energia. Eu também
pensava desta forma, embora ache que devemos encontrar uma solução
equitativa para apoiar alguns grupos desfavorecidos (pescadores e
agricultores) e alguns sectores estratégicos (transporte
colectivo de passageiros) na dura transição para uma
sociedade pós-petróleo. Mas as notícias
relativas à exploração das areias betuminosas
fizeram-me mudar de opinião.
As areias betuminosas consistem numa
mistura de areia ou argila, água e betume, um tipo de petróleo
muito denso e viscoso. Só no Canadá, estima-se que 170
biliões de barris de petróleo podem ser extraídos
das areias betuminosas de Athabasca, uma reserva apenas superada pela
Arábia Saudita. As areias betuminosas de Orinoco, na
Venezuela, terão um potencial ainda maior para a exploração
de petróleo.
A extracção do petróleo
das areias betuminosas é muito dispendiosa e extremamente
poluente. Enormes quantidades de água e gás natural são
utilizadas para retirar as areias e filtrar o betume, transformando
uma zona natural virgem num lamaçal negro. A quantidade de
gases com efeito de estufa libertados no processo é de tal
forma brutal que a exploração das areias betuminosas no
Canadá já foi intitulada pela Greenpeace como o maior
crime ambiental da história.
O que está a incentivar o
investimento em formas não convencionais de petróleo é
precisamente o aumento do seu preço. Recentemente, Adam Brandt
and Alex Farrell, investigadores da Universidade da Califórnia,
afirmaram que o aumento do preço do petróleo não
nos conduzirá a um maior investimento em formas de energia
limpas, mas antes agravará a degradação
ambiental2.
Esta conclusão pode ser
compreendida através do conceito de lock-in, ou seja,
aprisionamento tecnológico3. As sociedades industrializadas
encontram-se fortemente dependentes do petróleo e não é
de esperar que a situação mude sem que exista um forte
investimento dos governos nesse sentido. Daqui decorre que será
menos custoso para uma empresa ou um indivíduo continuar a
utilizar combustíveis derivados do petróleo, mesmo que
o seu preço aumente significativamente.
Esta espécie de
toxicodependência colectiva cria incentivos para que as
petrolíferas explorem fontes de petróleo alternativas,
como restos de petróleo em poços abandonados, areias
betuminosas e xisto petrolífero. É também
possível que sejam exploradas formas de liquefazer carvão
(algo que se fez em grande escala na II Guerra Mundial) ou de
transformar gás natural num combustível sintético
líquido. Recorrendo a todas estas fontes de combustíveis,
podemos ter uma reserva 18 vezes maior que a produção
total de petróleo até à actualidade. Mas estes
são combustíveis caros e extremamente poluentes.
Soluções para o futuro
De pouco nos vale conjecturar em
relação ao impacto que a especulação ou a
carga fiscal têm sobre o preço dos combustíveis.
O petróleo caro entrou em cena e não vai sair nunca.
Temos então duas alternativas. A primeira é continuar a
pensar no domínio do paradigma de progresso que levou o
planeta em que vivemos ao ponto de ruptura, investindo em crimes
ambientais como agro-combustíveis ou areias betuminosas. A
segunda é pensar de forma diferente, investindo em transportes
colectivos, em modos de transporte menos poluentes (como o carro
eléctrico), em energias renováveis e na produção
local como forma de reduzir as necessidades de transporte.
Como dizia Albert Einstein: “nenhum
problema novo pode ser resolvido pelo mesmo raciocínio velho
que o criou”.
1 - Ver Dossier Preço do Petróleo, no Esquerda.
2 - UC Energy Notes Newsletter, June 2008.
3 - Um exemplo típico é o do teclado QWERTY. Este teclado foi inventado para que fosse mais difícil dactilografar (em inglês, claro), de forma a evitar avarias nas máquinas de escrever. Hoje não há qualquer motivo para preservar este teclado, nem é justificável que um português use o mesmo teclado que um norte-americano, mas ficamos de tal forma aprisionados nesta tecnologia obsoleta que é difícil para uma empresa vender um teclado que não seja QWERTY.
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