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Os oceanos do planeta estão a aquecer mais 50% do que se previa até agora, e isso pode fazer com que as previsões sobre o aumento do nível do mar no fim deste século fiquem mais próximas do pior cenário. A estimativa é de um estudo australiano, publicado na revista científica Nature, que que os cientistas estavam a subestimar a chamada
expansão térmica, ou seja, o aumento do volume do mar em razão do
aquecimento da água.
Ela faz, pela primeira vez, um cálculo
preciso do quanto da elevação observada no nível global dos oceanos de
1961 a 2003 pode ser atribuído a essa expansão e o quanto é culpa do
derretimento causado pelo aquecimento global.
Esse balanço
mundial do nível do mar vinha tirando o sono dos oceanógrafos. No
famoso relatório publicado no ano passado pelo IPCC, o painel do clima
das Nações Unidas, a soma da contribuição do degelo e do aumento de
volume eram menores do que a elevação média de facto observada no
período.
Isso levou muita gente a desconfiar que os modelos
climáticos estivessem errados. Afinal, o que faz a qualidade de um
modelo é a precisão com a qual ele consegue reproduzir o clima medido
no passado.
Entra em cena Cátia Domingues, da Csiro, organização
nacional de pesquisas da Austrália. A cientista e seus colegas John
Church e Susan Wijffels descobriram que os modelos estavam certos:
erradas estavam as observações.
Os dados de observação usados pelo IPCC baseavam-se em estudos do
americano Sydney Levitus e do japonês Masayoshi Ishii, que fiaram-se em
medições feitas com um aparelho chamado XBT (batitermógrafo
descartável, na sigla em inglês).
"O XBT parece um torpedinho que
a gente lança ao mar para medir temperatura. O problema é que ele não
mede profundidade", diz Carlos Eiras Garcia, da Furg (Fundação
Universidade de Rio Grande), ex-orientador de mestrado de Domingues. A
relação entre temperatura e profundidade, fundamental para saber o
quanto cada camada do oceano aquece, era dada por uma equação
matemática. "Essa equação estava errada." diz Garcia. Os XBTs
"esconderam" a real taxa de expansão térmica do mar.
E não era só
isso: o método usado por Levitus e Ishii para inferir a temperatura da
camada mais superficial do oceano (até 700 metros de profundidade) em
regiões onde não havia medições feitas, como o hemisfério Sul, também
tinha falhas. O grupo australiano descobriu a origem desses dois erros
e refez todas as contas.
"Nós já esperávamos alcançar resultados
mais precisos, porque fomos os primeiros a corrigir os vieses nas
observações de temperatura do oceano", disse à Folha Domingues, 36.
"Agora, exatamente qual seria a diferença nós não sabíamos. Quando
terminamos os cálculos e comparamos com os resultados de Levitus e
Ishii, quase caímos para trás!"
A nova estimativa coloca
finalmente os modelos em concordância com as observações, embora a
elevação anual do nível do mar estimada por Domingues e colegas (1,6
mm) seja um pouco menor que o estimado pelo IPCC (1,8 mm).
O
problema é que, como o mar está a aquecer mais rápido do que se
pensava, a elevação final em 2100 tende também a ser maior. Os cenários
do IPCC indicam uma subida de 18 cm a 59 cm no fim do século. "Este e
outros resultados indicam que ela tende ao limite superior"
Fonte: Folha online
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